domingo, 27 de dezembro de 2009

O VOCABULÁRIO DO RIO JATOBÁ


Por
Jean Kleber Mattos / Brasília - Junho-2006

Numa manhã, fomos ao banho, no rio Jatobá - eu, meu pai, o Zaca e o Assis.Quero apresentar dois membros da comitiva.O Zaca é Zacarias Pereira de Souza, filho de "seu" Gustavo, que morava próximo ao rio. Trabalhava lá em casa. No futuro, integraria o contingente da gloriosa Marinha do Brasil, no Rio de Janeiro. Assis é Francisco de Assis Fernandes, filho de "seu" José Fernandes, que era um próspero sitiante na serra. Era estudante interno do Educandário. Assis viria a se ordenar padre em Roma, pela Ordem dos Paulinos, alguns anos depois. Hoje é jornalista prestigiado em São Paulo, especializado em televisão. É casado. Tem filhos e talvez netos.

É admirável o número de palavras e conceitos que uma criança pode aprender num simples banho de rio. A criança aprende apenas o básico, e, no correr da vida, os sinônimos mais sofisticados vão se incorporando ao seu linguajar. Beira do rio. Margem. Água limpa. Límpida. Cristalina. Piaba. Peixinhos. Filhotes de peixe. Alevinos. Remanso. A curva do rio. Águas mansas. Plácidas. Poço. Profundidade. Perigo. Saber nadar. A coroa do rio. Os ribeirinhos pronunciam a "c'rôa" do rio. Banco de areia. Cacimba. Cavar a água. Lençol freático.Aquele era um dia cheio de novidades.

O banho transcorria à sombra de grandes árvores que margeavam o rio. Logo alguém viu um enorme "enxuí" fixo em um galho de árvore. Enxuí. Casa de marimbondo.Vespeiro. Mel. Cria-se que ao produzir-se fumaça os marimbondos fugiriam ou seriam inibidos de atacar. Havia apenas fósforos. Não havia papel. Enfim encontramos algo bem combustível. Esterco seco de vaca. Produzida a fumaça e afastados os insetos, sobreveio a captura do enxu. Decepção! Apenas formas encasuladas restavam dentro. Inúmeras. Nada de mel. Tamanho não é documento. Crime ecológico. Colméia em fase de reprodução. Marimbondos são aliados dos agrônomos contra as pragas da agricultura. Predam lagartas.

Impossível para nós, naquele estágio, esse entendimento.Uma porca e três ou quatro bacorinhos atravessaram o rio. Um espetáculo enternecedor. Nadam bem. Quase submersos, apenas o focinho emergia. Ninhada de porcos. Filhotes de porco. Mais tarde, aprendi que o coletivo é vara. Se perguntado naquele dia, "porcaria" seria a resposta. Se muito, eu teria uns sete anos naquela época.

Um dia, o rio jatobá transbordou. A cheia do rio. A correnteza. Flocos de espuma. Pouquíssimos, pois ainda não conjugávamos o verbo 'poluir'. Meu padrinho de crisma, José Costa Matos, levou-me para ver. Minha mãe nos acompanhava. O padrinho José foi o herói do dia. Entusiasmado com o espetáculo das águas, lançou-se ao rio, enfrentando a correnteza. Nadou nas águas perigosas. Parecia um peixe. Um dia inesquecível para mim. O nadador seria em futuro próximo o famoso Costa Matos, poeta e escritor reverenciado nos meios literários cearenses. Se bem me lembro, naquela época ele acabara de lançar o primeiro livro de poesias, "Pirilampos".

Hoje o vocabulário das crianças é mais rico, porém cheio de palavras horrendas. Poluição. Desmatamento. Assoreamento. Eutrofização. Esgoto a céu aberto. Este é o vocabulário dos rios brasileiros no século XXI. Não mais piabas, nem água limpa. Não mais o banho seguro. E porquinhos? Ainda atravessam o rio? Haja coragem...

Outras palavras, porém, começam a se incorporar com sabor de esperança. Educação. Saneamento básico. Consciência ecológica. Reflorestamento. Campanhas. Solidariedade. Pacto de não agressão.
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Foto do rio Jatobá: acervo da prefeitura de Ipueiras

VOANDO COM FROTA NETO


Por Jean Kleber Mattos / Brasília, Junho-2006

Certo dia eu embarquei no aeroporto de Brasília com destino à Fortaleza, para gozo de férias. Meus pais já moravam comigo em Brasília, mas eu não dispensava aquela pequena temporada anual na terrinha.

Nossa casa em Fortaleza estava sob os cuidados de minha tia,D.Francisquinha, irmã de meu pai, que lá morava com o marido Francisco Fontes e a filha Salete.Uma alegre e numerosa comitiva havia embarcado antes de mim.

Quando entrei no avião ouvi alguém me chamar pelo meu nome "ipueirense" de infância:- Klebinho!

Era Frota Neto, então porta-voz de Saney, que estava indo à Fortaleza para o casamento da filha. Grande alegria! Muitos anos haviam se passado desde nosso ultimo encontro em Fortaleza, quando eu ainda estava no Cursinho Pré-Vestibular. Naquela ocasião, ele, recém-chegadode Cuba, havia me instruído sobre os programas sociais da ilha, pelos quais se entusiasmara.Meu assento no avião tinha número baixo, logo no início. O dele ficava mais ao fundo. O vôo aguardava passageiros de conexão de forma que, por alguns minutos, Frota Neto, com admirável simplicidade, sentado no braço da poltrona, colocou a conversa em dia. Perguntou por "seu" Mattos, por D.Mundita, deu notícias de amigos de Ipueiras eapresentou-me a alguns colegas jornalistas que o acompanhavam ao grande evento.

Embarcados os passageiros da conexão, a comissária pediu quenos acomodássemos para a partida. Foi quando tive a idéia de documentar aquele encontro histórico. Consegui um pedaço de papel e tão logo o vôo estabilizou fui até onde estava o Frota. Pedi-lhe que escrevesse uma mensagem para meu pai, seu professor na escola primária.Com entusiasmo, escreveu a mensagem, enquanto comentava alegremente com seus colegas sobre Ipueiras e nossa infância.

De repente era como se o tempo não tivesse passado. Ali estávamos,meninos de Ipueiras, Kleber e Antônio do Idálio, fazendo nossa pândega. No Bhagavad-gita li, certa vez, uma singela lição sobre a atemporalidade do espírito. Havia um convite a que a experimentássemos.Só o corpo envelhece. Em essência, o nosso pensar, o nosso gostar e o nosso querer permanecem os mesmos. Einstein descreveu a relatividade do "passar do tempo" em função da velocidade. Mas o fato incrível naquele momento, é que a Ipueiras encantada de nossa infância estava nos rejuvenescendo!

De volta para minha poltrona algumas pessoas que eu nunca vira antes,cumprimentaram-me sorridentes. Retribuí satisfeito e acomodei-me no assento. Endorfinas em alta, de repente comecei a me sentir importante.E porque não? Afinal eu era amigo do "ôme"!

Foi aí que "caiu a ficha"...
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Foto: blog Ipueiras.com

A VIAGEM ENCANTADA

Por
Jean Kleber Mattos / Brasília, Julho- 2006

Saudade do trem de 1950 viajando para Fortaleza. Viagem de trem era viagem elegante. Primeiro foi a Maria Fumaça. Denominação inspiradíssima. Sempre achei aquela máquina muito doida. Uma complicação só. Depois veio a máquina a Diesel. Mais moderna. Para mim, a Maria Fumaça tinha mais estilo.Houve tempo em que o trem que passava em Ipueiras tinha primeira classe. Poltronas cobertas e confortáveis. O que mais me impressionava no trem era o carro restaurante. Muito bacana almoçar junto à janela vendo o sertão passar. O desfile da natureza.

Deixando Ipueiras, nem bem tomávamos gosto na viagem, o trem parava. Era a estação Abílio Martins. Cidade pequena. Depois vinha o Ipu. Mais bacana. E aí, Cariré! A terra do arroz-doce. Na praça da estação, tabuleiros alinhados a céu aberto com os pratos cheios à mostra. Correria. O trem demorava pouco. Passageiros pulando da composição e correndo em direção à "iguaria". Comida apressada.O trem soava um apito anunciando a partida. Correria de volta. Nunca experimentei aquele arroz. Minha mãe não aprovava. Apenas apreciava o espetáculo gastronômico. Tínhamos nosso "farnel" próprio. Farofa de frango. Deliciosa.

Em Miraíma, a fartura do peixe. Açude. Lembro do coro dos vendedores de água portando uma quartinha e um copo de alumínio. O mesmo copo para todos. Indução de imunidade. A água mineral com gás era novidade para mim. Não matava a sede. Nota dez para a água da quartinha. Olhágua! Olhágua!

Numa estação ou outra, se muito, crianças do local atiravam areia no trem que passava. Às vezes pedras. O subdesenvolvimento gosta de marcar presença.A composição chegava a Sobral. Cidade grande. Quitutes mais sofisticados. Havia o "Colchão de Noiva". Era uma cocada especial e deliciosa, hoje atração turística em Fortaleza.

A vegetação natural do Vale do Acaraú, sempre me encantou. Árvores esparsas de copa horizontal. Como na África. Pude comparar no futuro.

Sentíamos Fortaleza mais próximo quando chegavam Itapipoca, a Pedra do Frade, e o vale do Curu. Daí, Caucaia. O holofote da Base Aérea varrendo os céus. A luz vermelha das torres. Agora sim, estávamos chegando. Sempre à noite. A grande estação. Deslumbramento!

Os chapeados, carreteiros com chapéu típico, com placa metálica numerada e bem polida, nos esperavam. Os carros de aluguel, Citroen. A Pensão do Norte, de "seu" Hermógenes, na rua Barão do Rio Branco, lá estava. Éramos velhos fregueses. Recepção amiga.

No dia seguinte, a incursão à Loja de Variedades e à "Quatro e Quatrocentos". Lanchonetes! O cheiro de pastel. O molho do cachorro quente. Delicioso! Não há igual nos dias de hoje. Sorvetes enormes! Brinquedos de plástico. Carrinhos de corda. A frota de carros de aluguel. Um show para arregalar os olhos de qualquer criança. Só tive medo do chuveiro. Nunca tinha visto um. Visitas aos parentes. Visitas aos escritórios comerciais. Meu pai já preparava o êxodo.

O regresso a Ipueiras. Acordar cedo. Enjôo passageiro. A partida do trem. Caminho de volta. Tudo de novo, ao revés. Um caminho pontilhado de nomes indígenas. Alguns graciosos, outros engraçados. Itapipoca era meu favorito. Miraíma parece nome de gente. Chegada prevista para as três da tarde. O trecho Ipu-Ipueiras era espacialmente mágico. O trem sacudia levemente e marcava compasso: Tatá-tatá, tatá-tatá...Raios dourados do sol espreitavam por trás de pequenas nuvens. Um céu de Constantino do tipo "in hoc signo vinces" conforme minha avó me mostrara numa ilustração da História do Cristianismo.

Eu estava dando tratos à bola. O que me esperava afinal, em Ipueiras? Minha avó Luizinha? Os coleguinhas do Educandário? Os banhos de tina, de rio e de chuva na rua? O banco de "notas" feitas com carteiras de cigarro? As cerimônias de "Te Deum" ao entardecer? Eu me lembrava do deslumbramento de Fortaleza e sorria. Mais dia menos dia, viveria lá. Mas um aperto no coração me fazia lembrar que Ipueiras havia, definitivamente, me conquistado. O trem fez uma longa curva. Lá longe, um morro. No alto, a figura branca com os braços abertos. O Cristo de Ipueiras dando as boas vindas!

Puro encantamento!
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Foto: acervo da prefeitura de Ipueiras-Ceará.

IPUEIRAS DE FÉ


Por
Jean Kleber Mattos / Brasília -Agosto-2006
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O primeiro casamento religioso que eu vi, foi em Ipueiras. Final dos anos quarenta, século vinte. Foi o casamento de meu padrinho de crisma, José Costa Matos com a ipueirense Alderi Moreira. Quando se é criança vê-se tudo maior, daí foi a cerimônia mais grandiosa que testemunhei nesta vida. Bonita e poderosa. Paramentos de gala com as cores do Vaticano. Fios d´ouro à vontade. Padre Francisco Correia Lima, o vigário, oficiou.

A fumaça branca emanada do turíbulo embalado pelo acólito em movimentos pendulares, dava um toque mágico ao ambiente do altar-mor. Se bem me lembro, o acólito vestia uma batina vermelha. Por sobre ela, uma sobrepeliz branca, com mangas rendadas. Também uma pala vermelha. Meus conhecimentos sobre liturgia católica são escassos, mas acho que era isso.

Lembro-me de umas flores brancas artificiais muito bonitas que surgiam no altar principal em dias de festa. Adonias era o sacristão. Acendia e apagava os candelabros. Havia uns cilindros brancos que pareciam velas. Não eram. Cotos de vela eram habilmente encaixados num depósito no ápice da peça. Estes sim, velas de parafina. O acendedor era uma peça metálica na extremidade de uma vara. Também servia para apagar. Tinha um pavio e um abafador em forma de cone metálico. Tudo na mesma peça.

Aquilo tudo me encantava. Queria ser padre. "Celebrava" missas em casa. Procurava imitar os movimentos do padre. Pequenas bolachas tipo "Ceci" faziam as vezes de hóstia, para delícia dos colegas. A comunhão era sem dúvida o momento mais aguardado.

Lembro-me de minha primeira comunhão. Meus pais envolveram o Educandário na celebração. Ofereceram um café da manhã a todos os alunos. Pediram-lhes que comparecessem vestidos de branco. Os que já haviam feito a primeira comunhão comungaram comigo. Depois da missa, o café "apoteótico" na sede da escola. Todos haviam sido convidados. Uma festa para ninguém esquecer.

E o jejum para a comunhão?. Às vezes batia a hipoglicemia. As velas pareciam tremular um pouco demais. Leve desmaio. "Agonia", dizia-se. Recuperação rápida.Eu gostava da cerimônia de "Te Deum", realizada sempre ao anoitecer. É rápida e bonita, bem ao gosto de uma criança. O ouro do cálice, a custódia dourada e radiante, o "design" do sacrário. Um encanto!

Gostaria de acolitar, mas era muito criança. Frota Neto, Nemésio, Marcondes e mais alguns, que eram maiores, já acolitavam a missa em latim. Meu amigo Nemésio, filho de "seu" Edmundo, ainda deu-me algumas lições, mas não adiantou:

- Introibo ad altare Dei...!

- ........!

- Qual é a resposta?

- Esqueci...

- Ad Deum qui lætificat juventutem meam!

Minha avó, D. Luizinha, com desvelo, confeccionou uns paramentos de cor verde, adequados ao meu tamanho. Fez-me a surpresa aproveitando um regresso meu de Fortaleza. Inesquecível.

Festas dos santos com quermesses, leilões e queima de fogos. Lembro-me de um avião artesanal que nas noites de festa corria num fio, propelido por pólvora. Ele partia da torre da igreja e ao chegar próximo ao solo, explodia. Neste momento, na Praça da Matriz, ficávamos com a respiração suspensa. Numa noite, a explosão retardou e um colega meu tentou segurar o brinquedo que então explodiu. Queimadura grave. Danos às mãos.

O menino, filho de "seu" Gonçalo Ximenes, teria que esperar a lenta cicatrização com a mão enfaixada. Foi, durante algum tempo, o herói da meninada.

E as procissões? Andores enfeitados com flores diversas e aspargo ornamental. A impressionante rigidez das imagens. Filas de fiéis caminhantes, alguns exibindo as fitas identificadores das congregações religiosas: Marianos e Filhas de Maria em destaque. Tudo isso ao som dos hinos, contando com a harmonia da banda de música local: "Da nossa fé oh Virgem...o brado abençoai...Queremos Deus...Que é nosso Rei...Queremos Deus...Que é nosso Pai..."

Havia um hino de beleza ímpar, que era entoado na hora da comunhão. Aí, destaque para a professora Diana ao "harmônio": "Jesus nosso Pai...Jesus Redentor...Te adoramos...Na Eucaristia...Jesus de Maria...Jesus Rei de amor!" Este maravilhoso hinário ainda hoje me inspira, muito embora não seja assíduo à Igreja Católica atualmente.

O escritor e cronista Carlos Heitor Cony, que se diz ateu, volta e meia é visto entre os fiéis, participando de missas no Rio de Janeiro. Ele também se encanta com a beleza da liturgia católica.

Somente uma cerimônia me assustava. A missa de requiem. Paramentos negros com realces brancos. O contraste total. Atmosfera pesada. Perda e sofrimento. Na véspera, o sino em toque compassado anunciando a jornada do féretro. A misericórdia da Igreja, conforme enfatizaria no futuro, o dramaturgo Nelson Rodrigues.Quase sempre aos domingos eu via, à porta da igreja, um ou outro "anjinho" em seu pequeno esquife de cor azul clara, ornamentado com flores de "Jasmim de Caiena". Cerimônia fúnebre. Os altos índices de mortalidade infantil refletiam o subdesenvolvimento da região. Impossível falar minimamente sobre a Igreja Católica na Ipueiras daqueles idos, sem mencionar as ladainhas vespertinas que se seguiam à reza do terço. Tudo em latim. Público predominantemente feminino. As Filhas de Maria, as donas de casa e suas crianças.

-Sancta Maria,

-Ora pro nobis.

...Sancta Dei Genitrix, Sancta Virgo virginum, Mater Christi, Mater divinæ gratiæ, Mater purissima, Mater castissima...Lembro-me de uma professora, Zélia, amiga de minha mãe, coordenando a reza.

Quando estive em Ipueiras em 1962, com dezesseis anos, ouvi, de viva voz, em presença de minha mãe, D. Mundita, e da prima Carlinda, o relato fantástico de dois ipueirenses miraculados.

Madrugada do dia nove de novembro de 1953. Começavam os preparativos para a partida da imagem peregrina da Virgem de Fátima, vinda de Portugal e que visitava Ipueiras. Os fiéis gritavam "vivas" a Nossa Senhora. De repente um "viva" diferente se ouviu. Era Vicente, o padeiro mudo, que acabara de aclamar a santa. Bem perto dali, ainda na Praça da Matriz, bem ao lado da igreja, a mãe da catequista Isa Catunda, quase cega de catarata, disse à filha que iria para casa, que era próxima. A filha aquiesceu e disse: "eu levo a senhora". "Não precisa", respondeu a mãe: "estou vendo o caminho."..

Os milagres foram relatados mais tarde no livro "Vendo a Vida Passar" de Padre Francisco Correia Lima, com trechos reproduzidos no livro "Quase" de Frota Neto, e por Marcondes Rosa, em crônica, no site de Ipueiras.

Em regozijo, Ipueiras fez construir na rua General Sampaio, em frente à casa do padre vigário, um arco, que Frota Neto em seu livro "Quase" chamou de Arco do Triunfo de N.S. de Fátima. O monumento é hoje de alvenaria, e feito, segundo Bérgson Frota, em artigo sobre o tema no blog de Ipueiras, pelo mesmo arquiteto que fez o Cristo de Ipueiras, Pedro Frutuoso. A obra foi concluída em 1954.
É o arco que representa o triunfo da fé do povo de Ipueiras !
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Foto: site hjobrasil.com

PEGA LADRÃO

Por
Jean Kleber Mattos / Brasília, setembro -2006

A alcunha do larápio era "Bolinha". Arrombador de residências. Marginal fichado na polícia de Fortaleza como perigoso. Arma branca. Sabe-se lá por qual motivo, resolveu deixar a capital e fazer incursões pelo interior do Ceará. Caminhos tortuosos o trouxeram a Ipueiras, no fim dos anos quarenta, século vinte.

Na primeira noite de atividade arrombou três residências, uma delas o Educandário, onde morávamos eu, meus pais Neném Matos e D. Mundita, minha avó Luizinha, a criada Maria José e um aluno interno, o Antônio Brandão.

No dia seguinte ao assalto, o Antônio, que dormia numa rede na principal sala de aula, deu por falta do par de alpargatas que deixara no chão sob a rede. Uma porta forçada forneceu a pista. Alguém entrara sem ser convidado. A notícia logo se espalhou. Quase certo que era alguém que vinha de longe, pois aquele tipo de crime não figurava em nossa lista de ocorrências.

O contingente policial era pequeno. Comandava-os o sargento Almeida. Logo, pacatos cidadãos da cidade ofereceram-se para compor uma patrulha de vigilantes que auxiliariam a polícia na captura do ladrão.

Minha avó narrou-nos então sua experiência da noite do assalto. Sono leve, acordou em meio à madrugada com um lampejo dentro de casa. Acendeu uma vela. Nada aconteceu. Apagou a vela, por fim. Daí a pouco, outro lampejo. Luz forte. Acendeu novamente a vela e ficou atenta. Nenhum barulho. Não mais lampejos.

Naquela época, rolava a crença de que lampejos inexplicáveis dentro de casa durante a madrugada, eram um sinal do além, avisando que estava próxima a "passagem" de alguém. Desencarne. Ela havia ficado meio preocupada. Diante, porém, dos novos fatos que agitavam a cidade, entendeu que os lampejos poderiam ser da lanterna do ladrão.

Neste dia a cidade dormiu em sobressalto. Noite escura como breu. A patrulha era pequena mas nuclearia em sua passagem eventuais dorminhocos, aos gritos, se houvesse necessidade.

De repente, um alarme no meio da noite: aqui! Alguém percebera o que poderia ser o facínora esgueirando-se de uma casa. A guarda e a patrulha cidadã acorreram. Lembro-me de Manoel Dias, o dentista, como um dos nucleados.

Tática de guerrilha, o grupo espalhou-se em leque para fechar os flancos, até que, de um quintal, um grito denunciou a presença do fugitivo. Sem chance para ele. Foi finalmente capturado. No dia seguinte, fila de gente à porta da cadeia para ver a presa. Objetos recuperados eram entregues aos donos.

As alpargatas do Antônio Brandão estavam lá. Uma das tiras fora parcialmente cortada à faca para acomodar o pé do ladrão, que era maior. Mesmo assim, Antônio qui-la de volta.

Lembro-me de minha avó toda arrumada, pronta para ir à cadeia visitar o detento. Comentou mais tarde sobre o diálogo com ele travado. Coletara a impressão do marginal ao descobrir que adentrara uma escola: !"só tinha carteira..." Sobre a coleta ínfima com a insignificante subtração das alpargatas do adormecido Antônio: "para não sair de mãos abanando..." Também sobre a boa qualidade da luz da lanterna: "a senhora gostou?" No mais, apenas comentários sobre leveza de sono e sinais do além: "credo...!"

O sucesso da caçada abriu espaço para lendas e bravatas nos dias que se seguiram. Comentava-se que um dos policiais "voara" mais de três metros ao precipitar-se sobre o fugitivo, imobilizando-o. Como não poderia deixar de ser, também circulavam as fofocas sobre quem tinha amarelado. E assim, o famoso "Bolinha" entrou, por vias tortas, na história da velha Ipueiras.

Ah! Minha avó anotou a marca da lanterna!
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Ilustração: site mfda.files.wordpress.com/2008/05/ladrao.jpg

TRIBUTO A NECI

Por
Jean Kleber / Brasília - Out. 2006


Janeiro de 1953. Início da revoada. Nós havíamos recém comprado as passagens de trem para Fortaleza. Íamos de vez. Viajaríamos no dia seguinte eu, meu pai Neném Matos e minha mãe D. Mundita. Tão logo conseguíssemos casa para alugar em Fortaleza, passaríamos um telegrama que acionaria o esquema.


Um caminhão, certamente o do Matinho, partiria de Ipueiras levando a mudança, enquanto minha avó D. Luizinha, seguiria de trem com sua criada Maria José. No caminhão estariam o Zaca, filho de "seu Gustavo" e o Assis, filho de "seu José Fernandes". O Zaca estava indo inscrever-se como aspirante na Marinha do Brasil e o Assis tentaria o noviciado na Ordem dos Padres Paulinos.


À noite, meus pais ainda estavam arrumando as malas quando duas moças chegaram. Uma delas chamava-se Neci. Moravam para os lados do açude. Neci fez um pedido inesperado. Queria ir conosco. Perguntou à minha mãe se ela tinha empregada em Fortaleza. Não tinha. Ofereceu-se então para o serviço. Uma rápida conversa de minha mãe com meu pai e a moça estava empregada. Seguiria conosco no dia seguinte. Crescia desta forma a nossa "equipe ipueirense de arribação". Na manhã seguinte, a passagem de Neci foi comprada na hora da partida.


Nos primeiros dias em Fortaleza ficamos hospedados na Pensão do Norte, à Rua Barão do Rio Branco, perto do Passeio Público. Saíamos todos os dias em busca de casa para alugar. Para nós e para minha avó. Numa delas, na Praia de Iracema, Neci acidentou-se numa cerca de arame farpado. Culpa minha. Mania de criança de fazer "pique pega" por nada. Ao escapar-me no jogo, Neci não viu o fio solto e cortou o peito do pé. Tomou injeção. Antitetânica. A marca do acidente remanesceria indelével. Menos mal que no pé.


Neci era simpática, doce e silenciosa. Índole boa. Se o Zaca fora meu grande companheiro em Ipueiras e Maria José a criada exemplar, Neci seria meu anjo em Fortaleza. Quando não estava ajudando minha mãe nos afazeres domésticos, acompanhava-me nas brincadeiras próprias de meus oito anos: soldadinhos de chumbo, águas coloridas, "bila" (bola de gude) e "trisca" (pique-pega).


Uma vez instalados no bairro Joaquim Távora, um telegrama acionou Ipueiras e o caminhão de lá partiu. Acomodados numa única "carrada", estavam nossos móveis e dois gatos: o "Pucí" (corruptela de "Pussy") e o Bambí.


Pucí era rajado, marrom-claro, meio assustado e "sistemático". O Bambí era preto e brincalhão, talvez por ser mais novo.Poucos dias após sua chegada em Fortaleza, Pucí assustou-se com os latidos de um cãozinho pequinês preto que o encarava e fugiu, não mais retornando. Bambí teve outra atitude. Pregou um tapa certeiro no focinho do bicho que fugiu ganindo. Ficou em casa. Viveu conosco algum tempo até que, não se sabe como, foi contaminado pelo vírus da raiva, vindo a morrer, não sem antes arranhar meu braço e morder a perna de Neci.


Fomos então companheiros, eu e Neci, no tratamento ambulatorial do Instituto José Frota, onde nos aplicaram uma série da famosa vacina anti-rábica. Enfermeiro Wilson aplicava. Gente boa. Lembro-me bem dele.


Meu pai tinha alergia à casa. Nem bem chegava do serviço e começava a espirrar. O banheiro era externo, nos baixos de uma caixa d'água. Parecia coletivo, do tipo que serve a duas casas. Na época se comprava, em barras grandes, um sabonete verde translúcido com aroma de eucalipto. Perfumadíssimo e barato. O banho matinal era animado. Lembrava os banhos de chuva em Ipueiras.


No Carnaval, que se daria logo em seguida à nossa chegada, dominava a música "Você Pensa Que Cachaça é Água?"


Neci revezava com o Zaca o apanhar-me na escola ao meio dia. Providência de minha mãe, até que eu, vindo do interior, aprendesse a lidar com o intenso tráfego da rua Visconde do Rio Branco.


Na escola, eu integrava uma turma especial do terceiro ano primário. Era no Colégio Cearense, dos irmãos maristas. Pela manhã eu ia a pé com meu pai, que me deixava à porta da escola e daí seguia para o escritório.


Quando era dia do Zaca me apanhar, ele trazia um garrafão de três litros de capacidade, para apanhar água. Sorte, o colégio fundara-se sobre uma fonte de água mineral gaseificada, a qual jorrava de todos os bebedouros. Em casa, formulávamos com ela o suco de uva concentrado comprado na mercearia. Tínhamos então um refrigerante caseiro delicioso e naturalmente gaseificado.


Mudaríamos de casa ainda duas vezes pelo menos. Primeiro para a rua Rodrigues Júnior, depois para a rua Heráclito Graça.


Neci estaria conosco todo esse tempo, ou sejam, seis anos mais ou menos. Ela era baixinha, "cheinha", de tez clara e macia, um tanto sardenta. Cabelo bem liso, em quase nada lembrava a mãe, que era morena e magra. Eu ouvira dizer que ela sofria da coluna, que era excêntrica, seqüela atribuída a uma queda da mãe quando grávida. Confesso que jamais consegui ver qualquer excentricidade ou defeito naquela doce criatura. Eu a achava linda. Os adultos não. Padrões pré-estabelecidos e assimilados. Como explicar então o encanto de Neci? Sem padrões previamente assimilados a criança cria seus próprios padrões. As crianças vêem a alma e a alma ocupa todos os espaços: sejam intercelulares, intracelulares, atômicos ou sub-atômicos. Assim, a conformação corpórea também se apresenta harmoniosa e bela, tal como a alma. Um amigo de Fortaleza que eu conheceria mais tarde, Padre Tarcísio, assistente de JEC, me diria nos anos sessenta que as crianças e as mulheres são os seres verdadeiramente metafísicos. Assimilaria na época, naquele mundo polarizado, que nós, os homens, sofríamos de indigência espiritual.


Em nossa cultura costuma-se comentar a amizade entre o filho do patrão e a empregada com um sorriso malicioso. Tal não se aplicava ali. Não fosse por meus poucos anos vividos, o seria pela estrada religiosa onde, àquela época, trafegava minha existência.


Hábito ipueirense, tínhamos um pote com água na cozinha. A tampa era um quadrado de madeira. Uma noite, Neci estava lavando os pratos. Após enxaguar cada um, colocava-os sobre a tampa do pote, até formar uma pilha. Naquele dia, a tampa do pote não estava devidamente ajustada e adernou com o peso. Todos os pratos caíram e quebraram. Acorremos à cozinha e logo percebemos que, para almoçarmos no dia seguinte, teríamos que comprar pratos novos. Eu estava excitado com a idéia de pratos novos. Criança gosta de novidade. Mas o que mais me encantou foi ver que meus pais estavam dando gargalhadas diante daquela pequena tragédia. Ou nos tornáramos todos crianças ou estava evidenciada a impossibilidade de se ter raiva de Neci.


Mas um dia Neci partiu. Soube que para casar-se.Vi-a ainda uma ou duas vezes quando nos visitou já em sua nova vida de dona de casa. Na ultima vez de que me lembro, percebi que o tempo já começava a marcar suas feições. Sorriu animada ao ver-me, quase esfuziante. Abraçou-me com carinho, como alguém que reencontra um filho ou um irmão mais novo. Naquele momento foi-me dado ver, em quase todo o seu esplendor, a beleza de Neci.



FIGURA: SITE elo7.com.br/rosto-mulher-estilizada/dp/4443E

ABRA A BOCA E FECHE OS OLHOS

Por
Jean Kleber Mattos / Brasília- Fev. 2007

Para mim é uma cena encantadora. O momento em que uma criança de dois anos mais ou menos é apresentada à primeira "balinha" de sua vida. Ainda sem a coordenação e a habilidade suficientes para desembrulhar a guloseima, morde-a com papel e tudo. Logo surgem os adultos dizendo-lhe, entre risos, "não é assim que se come". Isso tudo ante o olhar estupefato do infante.
Delícia!Creio que lembro de minha primeira balinha. Foi em Ipueiras, no Ceará, aos dois anos de idade, anos 40. Chamava-se "Caramelo". Era pequena, amarela, quase cilíndrica. Recheada, um fio de doce marrom avermelhado surgia à primeira mordida. Figurou durante muito tempo nos mostruários. O papel envolvente não era celofane. Era branco, com ilustração de frutas nas cores azul e amarelo.
Eu chamava tudo aquilo de bombom. Aprendi com alguém. Mais tarde soube que o nome certo é "bala". Em Pernambuco, "confeito". O bombom é de chocolate.Também lembro da primeira vez em que bombons com papel colorido encheram meus olhos.
Eurípedes Matos, filho do prefeito Sebastião Matos e recém chegado da América do Norte onde se formara, presenteou meu pai, Neném Matos, com uma caixa. Que felicidade! Bonitos e saborosos! O incrível gosto do chocolate!
Mas o regalo da fome de doces tinha na culinária local um elenco valioso de opções: doce de buriti, doce de leite, pirulitos, rapadura, tijolo de coco e cocada. Meu Deus, as cocadas! Manjar dos deuses. Engolir ou não o bagaço? Eis a questão...Os doces sempre foram prendas bem disputadas nos leilões das festas da paróquia de Ipueiras. As frutas locais eram matéria prima de uma grande quantidade de delícias. Doces de caju, goiaba, jaca, mamão e laranja da terra (da casca). Doce de manga não figurava entre os destaques. Banana, sim. Nas duas formas principais: massa e compota.
O mel de abelhas era sempre, para mim, o de jandaíra (Melipona subnitida Ducke). Meu pai mantinha um pequeno apiário tipo caixote. Cera preta. Favo do tipo panela. Abelha sem ferrão.Impossível esquecer os produtos do engenho de cana. Mel ou melado. Uma delícia. Com farinha então... E com banana fatiada? Hum!
A rapadura e a batida. Esta mais mole e envolta num invólucro de palha de bananeira. A palha de bananeira também embalava a mariola, um doce de banana vendido em tabletes. A palha e a folha da bananeira notabilizaram-se entre nós, nordestinos, como invólucros multiuso. Ainda sobre os produtos do mel de cana, não esqueçamos o alfenim ou "puxa-puxa".
Doces de leite tinha de dois tipos: um deles amarelo claro, de ponto meio cristalizado. O outro, "talhado", era grumoso e mais moreno. Minha preferência recaía sobre o primeiro. Era geralmente servido no bar de seu Guarani.
E o "colchão de noiva"? A iguaria em forma de cocada. Em Ipueiras não tinha. Bastava, porém, pegar o trem e rumar à Sobral. Em poucas horas servíamo-nos. Ainda morno. Sobre o caju, a indústria de doces sofisticou-se com o passar do tempo. Assim, doces da fruta existem na forma de "ameixa" onde o próprio fruto, inteiro, é o doce. Ou como cristalizado, este mais seco, envolto numa camada de açúcar, às vezes com a amêndoa assada do fruto habilmente implantada. Papel celofane o recobre.
No ambiente caseiro, era o doce em massa e a compota, ou a castanha assada cristalizada feita ao fogo, no tacho, com mel de açúcar cristal, até dar ponto.
Os doces sempre foram um ingrediente notável nas cenas de ternura. Desde a "hollywoodiana" caixa de bombons com a qual se adula a amada, até àquela conhecida brincadeira de por um doce na boca de alguém com a frase: "abra a boca e feche os olhos". Às vezes é farelo de rapadura... Tem coisa melhor?Os médicos nos advertem sobre a perigosa combinação do consumo de doces e a vida sedentária. Risco de diabetes.

Para mim, apenas um risco consigo reconhecer quanto ao consumo dessas delícias.Comer demais. Oh! Bicho bom !

Foto: site forademoda.files.wordpress.com/2007/08/convite_frente.jpg

O JIPE VOADOR


Por
Jean Kleber Mattos / Brasília -Jan. 2007

Estava com dezesseis anos quando, em 1962, retornei a Ipueiras. Oito anos haviam decorrido desde a partida em janeiro de 1953. Viajei de trem com minha mãe, D. Mundita, e a prima dela, Carlinda, professora de piano. Curta permanência. Apenas alguns dias.
Hospedamo-nos na casa de meu padrinho, Costa Matos. Lá, fui apresentado a um sobrinho da Alderí também adolescente e hóspede em férias. Bom companheiro.
Em moda na TV da época, os espetáculos marciais: "Tele Catch". À tarde, para diversão das crianças, o Lalú e o Carlito, filhos do Costa Matos, simulávamos uma luta de boxe como na TV. Encarapitados nos berços e redes, os meninos divertiam-se com o "show". Volta e meia um golpe mais duro escapava. Pedidos de desculpas. Quase não lembrava hoje do real nome do colega, Marconi, pois Costa Matos, exímio em colocar apelidos, o chamava de “Galante”. Uma óbvia referência ao perfil de paquerador, com capricho no vestir e pentear que lhe compunham a figura.
Localizei recentemente o Carlito, engenheiro de pesca Carlos Maria Moreira Costa Matos, Chefe de Gabinete do Ibama-Ceará. Lalú formou-se em medicina. É o Dr. José Cláver Moreira Costa Matos, famoso médico com destacada atuação em Fortaleza, no tratamento de crianças vítimas de incêndio.
No roteiro de visitas, inevitável, os miraculados. A imagem milagrosa da Virgem de Fátima estivera em Ipueiras em 1953 e dois amigos nossos, o Vicente que era mudo e a mãe da Isa Catunda, antes quase cega pela catarata, haviam sido recompensados por sua fé e devoção. Incrível ver o Vicente falar. Emocionante ver a mãe da Isa enxergar. Visitamos também Tia Catarina que havia morado no Videl, e D. Augusta, professora, amiga de minha mãe.
De início, o social pareceu prejudicado por minha condição momentânea de esportista. Sócio atleta de natação do Clube dos "Diários", eu somente permaneceria na equipe se atingisse a marca olímpica do clube nas provas que estavam por vir. Cuidava para não consumir álcool e dormir cedo, além de ser não fumante.
Eu já percebera que a cerveja era por certo a grande atração da rapaziada naquela idade. À noite íamos à praça principal encontrar as moças. Também comparecíamos às festas. Lá, encontraria meus primos Francisco e Manuelito. Lembro-me que o Carlito observava uma das festas à janela do Paço da Prefeitura. Em dado momento, comunicou-me que estava indo para casa, dormir. Preparei-me para acompanhá-lo, pois tratava-se de uma criança. Ele recusou dizendo que andava a vontade em Ipueiras, a qualquer hora do dia ou da noite.
Percebi então que a vivência em Fortaleza me fizera esquecer quão segura era a velha Ipueiras.
Algo me encantava de modo especial. A delicada beleza das moças. Hoje, passadas décadas, a memória alcança dois ou três nomes, se muito. Talvez porque a identificação se dava com mais ênfase no "filho de quem", que propriamente no nome de batismo. Assim, fazem eco em minha mente apenas os sobrenomes: Pinho, Catunda, Aragão, Mourão, Souza .... Enfim, os nomes das tradicionais famílias ipueirenses.
Em duas tardes, o ponto de encontro foi o Arco do Triunfo de N. S. de Fátima. Grupo misto. As moças comentavam sobre o ganho de indulgência a quem rezasse sob o arco. Lembraram-me de assumir uma atitude respeitosa no local. Padre Belarmino tinha especial zelo por aquele ambiente. Aviso desnecessário. Eu ainda estava impactado pelo encontro com os miraculados.
Numa tarde, alguns amigos convidaram-me para dar uma volta de jipe pela cidade. Findamos na pista de pouso, perto da estação de trem. O veículo era dirigido por Vavá, filho do Tim Mourão, ex-prefeito da cidade. Alguém falou que íamos levantar vôo. Fiquei curioso. De fato, o veículo partiu da cabeceira da pista. O motorista com o "pé embaixo". O ponteiro do velocímetro tremulava na marca dos cem. Os passageiros transpiravam adrenalina.
Faziam sucesso na época os "pegas" automobilísticos do filme "Juventude Transviada" protagonizado pelo "enfant terrible" James Dean. Eu estava ali vivenciando a versão Ipueirense. Genial!
Na volta de trem para Fortaleza, dois ou três colegas estavam junto. Iam à capital. Lembro-me que Manuelito integrava a comitiva. Demos preferência a viajar no vagão restaurante. Os amigos haviam mandado "baixar" algumas cervejas. 
Grande sucesso na época com o intérprete Miltinho, os versos da canção:
"Saudade! Criatura impertinente, entra no peito da gente e dói como não sei o que..." 
Nós cantávamos e batucávamos na mesa. Eu pensava na beleza singela de uma das moças de Ipueiras. Não conseguia esquecê-la. Percebia agora que a flecha de Cupido traspassara-me o coração. Havíamos prometido trocar cartas. Romântico.
Hoje os jovens comunicam-se pela Internet. Mensagens ultra-rápidas e coloridas. No início dos anos sessenta dominavam as cartas, postadas no correio. Demoravam a chegar, mas traziam o cheiro e a vibração da musa. Cartas eram cheiradas, beijadas e abraçadas. Por certo ainda o são, mesmo neste mundo "wébico" e globalizado. Resolvi por alguns momentos esquecer a "performance" atlética e acompanhar os amigos na cervejada.

Afinal, ninguém é de ferro!

PROPOSTA DO BLOG

Por
Jean Kleber Mattos



O presente blog tem como proposta de existência a publicação artigos literários relacionados à história do cinema, da música, da poesia e da crônica. Também reminiscências pessoais.
Serão publicados resumos de livros, trabalhos de pesquisa e apostilas, bem como textos de comunicação social para pessoas interessadas em assuntos da atualidade os quais sejam de relevante interesse.